A cidade de Santa Marta, na Colômbia, foi escolhida para sediar o primeiro encontro internacional dedicado à transição para longe dos combustíveis fósseis, iniciado na sexta-feira, 24. Nesta conferência, representantes de mais de 60 países estão reunidos com o objetivo de reduzir a produção, o consumo e a dependência global do petróleo.
O evento tem como um de seus principais focos a elaboração do chamado Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis, um documento cuja proposta partiu da presidência brasileira durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30.
De acordo com Ana Toni, diretora-executiva da COP30, o conflito envolvendo o Irã e a instabilidade nos preços do petróleo trouxeram à tona os riscos da dependência mundial de combustíveis fósseis, ressaltando a relevância da transição energética.
Infelizmente, a guerra contra o Irã, promovida pelos Estados Unidos e Israel, mostra que caminhar para longe dos combustíveis fósseis, dessa dependência que temos, é absolutamente necessário. Não só por questões climáticas, mas por questões econômicas, energéticas e de segurança.
Segundo Ana Toni, embora não se previsse esse cenário de instabilidade, o Mapa do Caminho se consolidou como um espaço de discussão e revisão dos aspectos energéticos, econômicos e de segurança relacionados ao uso de combustíveis fósseis.
O documento, que deve ser finalizado até novembro, trará orientações específicas para os países em relação à transição energética e à diminuição das emissões de gases poluentes que contribuem para as mudanças climáticas.
A participação da presidência da COP30 tem o objetivo principal de ouvir diferentes setores, como sociedade civil, povos indígenas e governos. Ana Toni afirmou que as demandas desses grupos servirão de base para o aprimoramento do Mapa do Caminho.
A presidência da COP30 está indo lá muito mais para ouvir do que para falar. A gente espera poder trazer muito do que vai ser o debate em Santa Marta. Queremos escutar o que os países, sociedade civil, grupos indígenas estão demandando, querendo.
Ela acrescentou que a plataforma de debates já tem sido desenvolvida com base nas demandas identificadas durante a própria COP30. A reunião na Colômbia, segundo a diretora-executiva, é mais uma oportunidade para colher novas opiniões e ajustar o documento orientador.
O evento é fruto da iniciativa conjunta entre Colômbia e Países Baixos, e a participação brasileira visa garantir que o Mapa do Caminho reflita os pontos discutidos em Santa Marta.
A decisão pela transição para longe dos combustíveis fósseis já foi tomada durante a COP28, realizada em Dubai. O atual esforço, segundo Ana Toni, está em detalhar os passos seguintes e estabelecer a sequência de ações para a implementação efetiva desse processo.
A diretora-executiva destaca que, embora a decisão exija consenso, a execução das medidas pode ser adaptada conforme a realidade de cada país. Para alguns, a eletrificação será a prioridade; para outros, investir em combustíveis sustentáveis pode ser mais relevante. O objetivo, portanto, é demonstrar que existem múltiplos caminhos para colocar em prática as resoluções da COP28.
Cerca de 60 países estão presentes na conferência, e Ana Toni ressalta que a maioria da população mundial vive em nações importadoras de combustíveis fósseis, o que revela a importância do tema para produtores e consumidores. Ela cita como exemplo a Etiópia, que, sendo um país consumidor, optou por não importar mais veículos movidos a combustão, medida classificada como fundamental para o avanço da transição energética.
No processo de construção do Mapa do Caminho, mais de 250 contribuições de países e entidades não estatais foram recebidas, evidenciando o interesse global por discutir os próximos passos da transição energética. A conferência em Santa Marta é considerada um fórum relevante para amadurecer as propostas concretas, uma vez que a decisão de avançar já foi tomada.
O prazo para envio de contribuições ao Mapa do Caminho foi encerrado em 10 de abril. Ana Toni aponta que o grande volume de informações recebidas exigirá priorização criteriosa das recomendações, já que cada país apresenta circunstâncias próprias em relação à dependência de combustíveis fósseis.
Ela reforça que, sem um planejamento cuidadoso, o encerramento dessa dependência pode trazer impactos negativos, como já ocorre atualmente em escala global.
Segundo Ana Toni, já existe uma estrutura preliminar para o documento, composta por capítulos temáticos, cuja manutenção dependerá da escuta ampla de todas as partes envolvidas. O primeiro capítulo abordará os riscos da não realização da transição, contemplando aspectos climáticos, naturais, políticos, de segurança e demais ameaças identificadas.
O segundo capítulo analisará a transição sob o ponto de vista dos produtores de combustíveis fósseis, incluindo tanto países quanto empresas, além de considerar também as perspectivas dos consumidores, como os setores elétrico, de transporte e industrial. O foco será compreender os impactos da dependência e as oportunidades para acelerar o processo em cada segmento.
Uma terceira seção do documento discutirá a dependência econômica dos países em relação aos combustíveis fósseis, reconhecendo que as situações econômicas variam amplamente. A proposta é mostrar que, inclusive para governos subnacionais, como prefeituras, a dependência não é apenas energética, mas também econômica.
O último capítulo será dedicado às recomendações da equipe para o cenário mundial, indo além das contribuições para a próxima conferência climática, a COP31.
Sobre a possibilidade de uma transição planejada, justa e sensível às diferentes realidades, Ana Toni afirma que esse processo já está em curso. De acordo com ela, o mundo avança com um "pé no acelerador" das energias renováveis, armazenamento e eficiência, enquanto ainda mantém investimentos em combustíveis fósseis.
O propósito atual é reduzir gradualmente a dependência dos fósseis, acelerando a transição já iniciada. Toni defende que a justiça social é condição indispensável para o sucesso das mudanças e destaca que novas rodadas de balanços e conferências, como a COP31 e a COP32, contribuirão para amadurecer as experiências e identificar os caminhos que podem ser acelerados.
Eu não tenho nenhuma dúvida que essa mudança tem que ser justa, porque, se não, ela não vai acontecer. Eu acho que a gente tem uma oportunidade única de continuar debatendo esse tema. Vai ter aí COP31, COP32, vai ter o segundo Balanço Global, para que a gente amadureça o que está funcionando. Para a gente chegar nesse novo Balanço Global muito mais capazes de falar o que deve e pode ser acelerado daqui para frente.
Ela finaliza expressando otimismo quanto à continuidade dos debates políticos necessários para a tomada de decisões acertadas no processo de transição energética mundial.