A série documental Gente de Verdade, desenvolvida por indígenas do povo Paiter Suruí, foi contemplada pela chamada pública Seleção TV Brasil, iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com apoio de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A produção retrata a luta pela preservação da memória e da identidade do povo Paiter Suruí, localizado na Amazônia brasileira.
O projeto integra um grupo de obras selecionadas por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que é uma ação conjunta do Ministério da Cultura (MinC) e da Agência Nacional do Cinema (Ancine). A Seleção TV Brasil, anunciada em fevereiro deste ano, contemplou ao todo 39 projetos, que juntos receberão um investimento total de 109.889.224,78 reais, valor considerado o maior já destinado pelo Estado brasileiro à produção de conteúdo audiovisual para a televisão pública.
Na categoria Sociedade e Cultura, onde estão inseridas outras sete produções, Gente de Verdade se passa na terra indígena Sete de Setembro, localizada entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. A região é habitada pelo povo Paiter Suruí, que estabeleceu o primeiro contato com não-indígenas há pouco mais de meio século.
Desde então, transformações profundas marcaram a vida da comunidade. Práticas tradicionais vêm sendo deixadas de lado, com a substituição de pajés por igrejas, abandono de rituais e esquecimento da língua originária Tupi Mondé entre os jovens.
A narrativa do documentário acompanha a trajetória de quatro personagens de três gerações diferentes — Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy — que enfrentam desafios para manter viva a identidade Suruí, diante de pressões como a presença da fé cristã, o avanço da vida urbana e o impacto das novas tecnologias. Os episódios apresentam temas como ancestralidade, pertencimento e as dificuldades de equilibrar tradição e modernidade.
Composta por oito episódios, cada um com 26 minutos de duração, a série tem como proposta principal apresentar a realidade do povo Suruí a partir de seu próprio ponto de vista, com protagonismo indígena. O enredo toma como ponto de partida a descoberta de um acervo visual criado por um fotógrafo alemão, que registrou o primeiro contato da comunidade com não-indígenas na década de 1970. Esse material serve de base para um debate sobre memória, espiritualidade e identidade, levantando questões sobre a possibilidade de utilizar tais imagens sem ferir crenças religiosas ou costumes que proíbem, inclusive, mencionar pessoas já falecidas.
A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, responsável pela coordenação da Seleção TV Brasil durante o período em que ocupou o cargo de diretora de Conteúdo e Programação, avaliou que o projeto tem potencial para vencer qualquer edital. Ela destacou que os criadores optaram por inscrevê-lo especificamente no certame da TV Brasil, escolhendo exibir a obra em uma emissora pública.
“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.
A série Gente de Verdade evidencia o envolvimento direto de indígenas na produção audiovisual. A direção é assinada por Ubiratan Suruí, que pertence ao próprio povo retratado, enquanto o roteiro ficou sob responsabilidade de Natália Tupi, cineasta e fotógrafa indígena. A narrativa é construída a partir das experiências e vivências nos territórios, valorizando o olhar dos próprios protagonistas.
Segundo Ubiratan Suruí, a principal diferença da série em relação a outras produções está no fato de ser conduzida pelos próprios indígenas, aspecto que, segundo ele, garante autenticidade e protagonismo.
“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.
O diretor também afirma que ver uma obra produzida por indígenas sendo exibida na TV Brasil representa um avanço importante. Ubiratan argumenta que, por ser um canal de abrangência nacional e de caráter público, a emissora oferece oportunidades para que mais pessoas conheçam as histórias dos povos originários, ampliando o diálogo, respeito e reconhecimento.
“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.
No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo, realizou a mostra Paiter Suruí, Gente de Verdade, composta por 800 fotografias feitas desde a década de 1970, período em que câmeras fotográficas chegaram à Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição proporciona um mergulho nas narrativas, tradições, laços afetivos, cotidiano e resistência do povo Suruí. O conteúdo da mostra segue disponível para acesso por meio do site do IMS.