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Cooperativa de catadores enfrenta ordem de despejo após 37 anos em Pinheiros

Coopamare, pioneira nacional na reciclagem e com 100 toneladas por mês, defende permanência após notificação da Prefeitura

22/04/2026 às 20:54
Por: Redação

A Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), localizada sob o Viaduto Paulo VI, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, recebeu da Prefeitura uma notificação determinando a desocupação da área onde opera há mais de trinta anos.

 

Segundo a notificação, que foi expedida no dia 31 de março, a permanência da cooperativa em um espaço de 675 metros quadrados é considerada irregular, pois, conforme auto de fiscalização emitido em 18 de março, trata-se de ocupação não autorizada, classificada como invasão. O prazo concedido para apresentação de defesa foi de 15 dias, tendo a Coopamare protocolado seus argumentos no dia 2 de abril.

 

A Prefeitura de São Paulo havia revogado em 2023 a permissão de uso do local, alegando a necessidade de proteger o patrimônio público e mencionando riscos de incêndio. Apesar de ser procurada para se manifestar sobre a notificação, a administração municipal não se pronunciou até o fechamento das informações.

 

Fundada há quase quatro décadas, a Coopamare é reconhecida como a mais antiga cooperativa de reciclagem de materiais em atividade no Brasil. Atualmente, o grupo recupera, todos os meses, aproximadamente 100 toneladas de resíduos recicláveis, resultado do trabalho de 24 cooperados e ainda de cerca de 60 catadores autônomos.

 

De acordo com Carla Moreira de Souza, presidente da Coopamare, a entidade buscou dialogar com a Prefeitura após a revogação da autorização do espaço no ano anterior. Segundo ela, houve o compromisso de que seria oferecido um local adequado para transferência das atividades.

 

“Estamos aqui há 37 anos. Aceitamos ir para outro lugar, desde que seja um galpão onde tenhamos condições de continuar trabalhando. A prefeitura nos oferece outro viaduto, mas o espaço é pequeno e não dá para levar nossas coisas".


 

Carla Moreira de Souza afirma que a cooperativa não tem interesse em se instalar sob outro viaduto, pois o espaço sugerido pela administração municipal é insuficiente para manter as operações atuais. Ela complementa:

 

"Não queremos ir para outro viaduto. Nossa expectativa hoje é a de que ela nos deixe onde estamos ou arrume um galpão, na mesma região, para podermos trabalhar em paz, com todos os direitos que temos como trabalhadores”.


 

Manifesto e mobilização pela permanência

 

A Coopamare lançou um manifesto que integra um abaixo-assinado em defesa da manutenção de suas atividades no bairro de Pinheiros. No documento, a cooperativa argumenta que apoiar sua permanência equivale a defender o trabalho digno, o meio ambiente e a justiça social.

 

No texto do manifesto, destaca-se a trajetória dos integrantes da entidade, que consideram a Coopamare um símbolo de luta, dignidade e sustentabilidade. Muitos deles já estiveram em situação de rua e, através da reciclagem, conseguiram transformar suas vidas por meio de atividade honesta e que contribui para a cidade.

 

Segundo o manifesto, além de garantir trabalho e renda, a cooperativa desempenha um serviço considerado essencial para a região, promovendo a separação e encaminhamento adequado dos materiais recicláveis. O documento ressalta que esse tipo de atuação reduz índices de poluição, diminui a quantidade de resíduos destinados a aterros, preserva recursos ambientais e ainda resulta em economia de recursos públicos, a partir da diminuição dos custos de coleta municipal.

 

O texto do manifesto também aponta que a Coopamare representa um exemplo de organização social para milhares de catadores em todo o país, muitos dos quais mobilizaram-se e se profissionalizaram a partir da experiência local, superando situações de desemprego e informalidade pela integração formal à categoria, historicamente marginalizada.

 

A Associação Nacional de Catadores/as de Materiais Recicláveis (Ancat) declarou apoio institucional à Coopamare, classificando-a como a primeira cooperativa de catadores do Brasil e ressaltando sua importância histórica para a consolidação da reciclagem com inclusão social no país. A entidade reforçou que a permanência da cooperativa não deve ser encarada como concessão, mas sim reconhecimento de um serviço essencial ao município. Outras organizações, como a Unicatadores e o Movimento Nacional dos Catadores (as) de Materiais Recicláveis (MNCR), também se manifestaram favoravelmente à manutenção da Coopamare no local onde atua.

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