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Milton Santos: Geógrafo Negro Completa Centenário Com Teoria Contra Desigualdades

Estudos sobre circuitos urbanos e globalização mantêm obra de Milton Santos como pilar para entender a exclusão social.

03/05/2026 às 13:36
Por: Redação

O legado do geógrafo Milton Santos, que completaria 100 anos neste 3 de maio, permanece como pilar essencial para a compreensão das complexas dinâmicas de desigualdade e exclusão social, tanto no Brasil quanto globalmente. Suas teorias, formuladas na década de 1970, continuam a oferecer lentes críticas para analisar as relações entre espaço, economia e sociedade.

 

Um exemplo prático da atualidade do pensamento de Santos pode ser observado em São Luís, no Maranhão, onde a coexistência de grandes supermercados e feiras populares ou mercadinhos, que atendem a populações de baixa renda, ilustra as profundas disparidades urbanas. Esse cenário foi objeto de pesquisa de Livia Cangiano, pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), que utilizou a obra do geógrafo em sua análise.

 

Milton Santos conceituou a economia urbana dividindo-a em dois circuitos distintos. O circuito superior é caracterizado por grandes empresas, alto investimento tecnológico, capital substancial e organização complexa. Em contraste, o circuito inferior abrange pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos formais, mas que se destacam pela capacidade de adaptação às necessidades específicas da população.

 

“É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, explica Livia Cangiano.

 

A pesquisadora exemplifica a flexibilidade do circuito inferior, especialmente no setor de alimentos. Enquanto grandes redes supermercadistas exigem a compra de produtos em quantidades fixas, como a dúzia de ovos, os estabelecimentos menores adaptam-se para vender itens separadamente, permitindo que o consumidor adquira, por exemplo, um único ovo, conforme sua necessidade e disponibilidade financeira.

 

A relevância das teorias de Milton Santos transcende as fronteiras brasileiras. O projeto de pesquisa do qual Livia Cangiano faz parte aplica as ideias do geógrafo para compreender as dinâmicas urbanas em diversas localidades internacionais, incluindo Gana, na África, e cidades europeias como Londres e Paris.

 

A Trajetória de um Intelectual Negro

 

Nascido em 3 de maio de 1926, na cidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos consolidou-se como uma das figuras mais proeminentes da geografia mundial. Sua formação acadêmica incluiu o bacharelado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado pela Universidade de Strasbourg, na França.

 

Durante o período da ditadura militar no Brasil, Santos foi forçado ao exílio, lecionando em prestigiadas universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao país, ele intensificou e consolidou sua vasta produção intelectual, atuando como professor em instituições de destaque como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP).

 

Como intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural presente no ambiente acadêmico, o que o levou a desenvolver uma obra que transformou a maneira de compreender o espaço geográfico, integrando aspectos econômicos, políticos e sociais. Sua trajetória e pensamento se tornaram uma inspiração fundamental para outros pensadores negros, incluindo a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

“Eu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na década de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade não eram negros. Então, o Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, relata Catia Antonia da Silva.

 

Catia Antonia da Silva esclarece que, embora a negritude e a dimensão política da relação entre classe social e raça não fossem o tema central da obra de Milton Santos, sua teoria social crítica das desigualdades se mostra uma ferramenta poderosa para a análise das questões raciais. O geógrafo, por sua vez, nunca se esquivou de se posicionar publicamente sobre o tema quando necessário.

 

“Ele dizia que o fato de ser um professor universitário não o impediu de viver experiências de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimização para se tornar um intelectual.”

 

Análise Profunda das Desigualdades

 

Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos desenvolveu outros conceitos que aprofundaram a compreensão das desigualdades. Ele defendia que o espaço geográfico não é meramente um palco para a vida, mas sim o resultado direto de decisões políticas e econômicas. Isso implica que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades, como saneamento básico, transporte público ou acesso à internet, não surge por acaso, mas é fruto de escolhas que favorecem determinados grupos e regiões.

 

Ao observar uma periferia desprovida de serviços essenciais ou uma área valorizada com alta concentração de investimentos, o geógrafo propunha que se enxergasse ali a materialização concreta de relações de poder, e não apenas uma coincidência.

 

“Milton traz essa compreensão de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. À medida que o capitalismo avança, processos de industrialização e urbanização no Brasil vão produzir desigualdades e destruição das economias locais. Seja do Nordeste, da Amazônia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais serão beneficiados pelo processo de modernização”, detalha a geógrafa Catia Antonia da Silva.

 

Em sua obra Por uma outra globalização, Milton Santos criticou o sistema globalizado que, embora prometesse integração e progresso, na prática, acentuava as disparidades mundiais. Ele argumentava que grandes projetos de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, ao mesmo tempo em que conectam países e mercados, também reconfiguram os territórios locais, exercendo pressão sobre comunidades e intensificando a concentração de riqueza.

 

Outro conceito crucial do autor é o “meio técnico-científico-informacional”, que descreve como a tecnologia, a ciência e a infraestrutura se tornaram elementos centrais na moldagem do território. Essa realidade se manifesta na coexistência de regiões altamente conectadas, com redes digitais avançadas e logística eficiente, ao lado de áreas que carecem de serviços básicos, evidenciando que alguns espaços são preparados para as demandas do mercado global enquanto outros permanecem marginalizados.

 

Caminhos para a Transformação

 

Apesar de seus diagnósticos críticos sobre as desigualdades, Milton Santos também apontou para possíveis caminhos de transformação. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que frequentemente contribuem para a ampliação das disparidades poderiam ser, por sua vez, apropriadas pelas comunidades locais para gerar alternativas econômicas e sociais.

 

Iniciativas comunitárias, a aplicação de tecnologia em áreas periféricas e a organização por meio de formas cooperativas são exemplos, segundo o autor, de como o território pode se converter em um espaço de resistência e reinvenção.

 

“Ele propõe uma leitura sobre o território brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que não fique apenas no plano teórico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espaço”, afirma a geógrafa Livia Cangiano.

 

“Além disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espaço, que é pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo é capaz de produzir outras racionalidades de existência”, completa a pesquisadora.

 

Homenagens ao Centenário

 

O centenário de nascimento de Milton Santos será marcado por uma série de eventos comemorativos em diversas partes do país. As programações, que ocorrerão em formato híbrido (presencial e virtual), reunirão pesquisadores, ativistas e o público em geral para refletir sobre o vasto legado do geógrafo e a contínua relevância de sua obra.

 

Entre os destaques, o Seminário Internacional Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21 acontecerá na USP, de 4 a 8 de maio, com transmissão online, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc promoverá um ciclo de palestras dedicado ao geógrafo ao longo de todo o mês de maio. Já a Universidade Federal do Tocantins sediará, entre 26 e 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio Técnico-Científico-Informacional, que buscará debater internacionalmente o pensamento e a contribuição de Milton Santos.

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