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Estudo indica aumento no risco de Guillain-Barré após infecção por dengue

Pesquisa mostra que risco de Guillain-Barré aumenta até 30 vezes após dengue; prevenção é fundamental

16/04/2026 às 23:48
Por: Redação

Uma pesquisa realizada por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres aponta que pessoas contaminadas pelo vírus da dengue apresentam uma probabilidade 17 vezes superior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas que sucedem a infecção. Nas duas primeiras semanas após o surgimento dos sintomas da dengue, esse risco se intensifica, podendo alcançar até 30 vezes mais que o registrado na população em geral.

 

O estudo foi publicado na revista científica New England of Medicine e destaca que, em números absolutos, a estimativa é de que a cada um milhão de casos de dengue, 36 pessoas possam manifestar a SGB. Embora esse quantitativo seja considerado pequeno, ele adquire relevância diante do cenário de epidemias recorrentes de dengue no país, conforme análise dos autores da pesquisa.

 

A Síndrome de Guillain-Barré é classificada como uma complicação neurológica rara e com potencial de gravidade. Os dados utilizados na pesquisa foram obtidos a partir de três amplos bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS), englobando registros de internações, notificações de casos de dengue e óbitos.

 

Durante a análise dos dados referentes ao período de 2023 a 2024, os pesquisadores identificaram mais de 5 mil internações hospitalares relacionadas à SGB, sendo que, desse total, 89 hospitalizações ocorreram imediatamente após os pacientes apresentarem sintomas de dengue.

 

O levantamento recomenda que autoridades em saúde pública passem a considerar a SGB uma possível complicação pós-dengue em seus protocolos de vigilância. Os pesquisadores alertam para a urgência de ações preparatórias no sistema de saúde, especialmente durante momentos de surtos de dengue, para que sejam feitas a identificação precoce de quadros de fraqueza muscular e a disponibilização de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e suporte ventilatório.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

A Fiocruz ressalta que o estudo contribui para alertar médicos, enfermeiros e neurologistas a suspeitarem da SGB em pacientes que tenham apresentado dengue nas seis semanas anteriores e que relatam sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento. O diagnóstico precoce é considerado fundamental, pois os tratamentos disponíveis, como administração de imunoglobulina ou plasmaférese, apresentam melhores resultados quando iniciados rapidamente.

 

Os responsáveis pela pesquisa enfatizam a importância de notificar os casos de SGB ocorridos após dengue e de comunicar as autoridades de vigilância epidemiológica municipais e estaduais sobre a ocorrência de doenças neuro-invasivas ligadas a arbovírus. Atualmente, não existe tratamento antiviral específico para a dengue; o manejo clínico baseia-se em hidratação e suporte clínico geral. Por esse motivo, os pesquisadores reforçam a necessidade de prevenção, com destaque para medidas de combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação, consideradas as estratégias mais eficazes na redução do número de casos e, consequentemente, das complicações graves como a SGB.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Epidemia de dengue e impactos neurológicos

 

A Fiocruz aponta que o Brasil enfrenta episódios frequentes de epidemias de dengue e, somente em 2024, foram contabilizados mais de 6 milhões de casos prováveis no país. Apesar de ser uma complicação considerada rara, o elevado número de casos de dengue no país faz com que a quantidade absoluta de pessoas afetadas pela SGB após a infecção seja significativa, o que demanda preparação do sistema de saúde.

 

Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, a dengue disseminou-se mais rapidamente pelo mundo do que qualquer outra doença transmitida por mosquitos, atingindo a marca de 14 milhões de casos globais em 2024. A associação entre arboviroses (doenças transmitidas por mosquitos) e quadros neurológicos já havia sido evidenciada durante a epidemia de Zika ocorrida entre 2015 e 2016, período em que o vírus foi relacionado tanto ao aumento de casos de microcefalia em bebês quanto ao crescimento expressivo de registros de SGB em adultos. O vírus da dengue faz parte da mesma família do Zika.

 

A SGB caracteriza-se por ser uma condição em que o sistema imunológico do próprio indivíduo ataca os nervos periféricos, ou seja, as células responsáveis pela conexão entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do organismo. O quadro clínico envolve fraqueza muscular, que normalmente se manifesta inicialmente nas pernas, podendo se estender para os membros superiores, face e, em situações mais graves, comprometer a respiração. Nessas circunstâncias, o paciente pode chegar a necessitar de aparelhos para respiração e apresentar paralisia generalizada.

 

A maior parte dos pacientes se recupera da Síndrome de Guillain-Barré, contudo, o processo de recuperação pode ser prolongado, durando meses ou até anos, e uma parcela dos acometidos pode apresentar sequelas permanentes.

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