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Projetos de bioeconomia transformam áreas degradadas e criam novas fontes de renda no Pará

Agroflorestas, agricultura familiar e agroecologia fortalecem bioeconomia e inclusão social no Pará

27/04/2026 às 20:01
Por: Redação

Em uma região anteriormente dedicada à pecuária, localizada na zona rural de Canaã dos Carajás, no Pará, foi instalada a fazenda-laboratório São Francisco, pertencente à Belterra Agroflorestas. Nesta propriedade, a Belterra desenvolve ações para restaurar pastagens degradadas por meio do sistema agroflorestal (SAF), especialmente voltadas para o cultivo de cacau.

 

O sistema agroflorestal utilizado nessa área, situada nas proximidades da Floresta Nacional dos Carajás, permite o desenvolvimento simultâneo de diversas culturas agrícolas. Um exemplo é o plantio de bananeiras, que serve para propiciar sombra e condições adequadas ao desenvolvimento tanto do cacau quanto de diferentes espécies florestais.

 

Desde 2020, a Belterra conta com apoio da Vale e, mais recentemente, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), através do Fundo Clima. A empresa, que teve origem como uma startup, é um exemplo de iniciativa focada na recuperação de áreas degradadas através de sistemas agroflorestais.

 

Além de impulsionar a economia local, o projeto contribui para ações de restauração ambiental, conectando pequenos e médios produtores à comercialização de créditos de carbono.

 

Na região amazônica, de acordo com a plataforma Jornada Amazônia, existem atualmente 789 startups que geram impactos positivos para a floresta. Além dessas empresas, cadeias produtivas que envolvem floresta, agroecologia, bioeconomia e agricultura familiar também têm papel relevante no estímulo econômico e na criação de oportunidades de renda, sobretudo no Pará.

 

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mantém mais de 40 projetos dedicados à bioeconomia na Amazônia. Esses projetos abrangem culturas como guaraná, cacau, castanha, produção de grãos e até de carne, sempre buscando manter um balanço favorável de carbono, ou seja, com baixas emissões de gases de efeito estufa.

 

Entre as iniciativas, destaca-se o melhoramento genético do açaí, uma cultura estratégica para as comunidades amazônicas. Alexandre Hoffmann, engenheiro agrônomo, pesquisador e gerente-adjunto de portfólios e programas de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Embrapa, enfatiza que é possível aliar conservação da biodiversidade florestal com produções agrícolas sustentáveis na Amazônia.

 

"A biodiversidade da Amazônia tem um potencial que não foi ainda explorado em sua totalidade. Mas isso não significa derrubar a floresta. Muito pelo contrário: significa manter a floresta em pé e utilizá-la de forma sustentável, não só a floresta em si, como também os recursos que lá estão", declarou Hoffmann.


 

O pesquisador também destacou que manter a floresta amazônica preservada é vital não apenas para a região, mas para o equilíbrio hídrico nacional e para o enfrentamento das mudanças climáticas. Ele ressaltou a necessidade de ciência, tecnologia e identificação de produtos que possam ser extraídos da biodiversidade e utilizados de forma sustentável.

 

Iniciativas comunitárias valorizam produção agrícola local

 

Além dos SAFs, outras ações sustentáveis buscam promover a conservação da biodiversidade enquanto geram renda e segurança alimentar, sobretudo entre agricultores familiares e comunidades tradicionais.

 

No assentamento Palmares II, antigo assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Teto (MST) em Parauapebas, produtores rurais iniciaram o plantio de mandioca. Cerca de 33 agricultores da Associação dos Produtores da Vila Palmares Sul (Aprovipar), com apoio do Fundo Vale, uniram esforços para fortalecer a agricultura familiar e a agroecologia por meio desse cultivo.

 

Nos últimos dois anos, os produtores passaram a integrar a Cooperativa dos Produtores de Alimentos de Parauapebas (Coopa), com o objetivo de direcionar a produção local. O processo já avançou com a inauguração da Casa de Farinha da Palmares II, unidade onde a mandioca será processada em diferentes tipos de farinha, incluindo descascamento, lavagem, prensagem, escaldamento e torrefação.

 

O vice-presidente da associação, Roberto de Almeida Menezes, ressaltou a importância de agregar valor à mandioca produzida, citando que a cidade de Parauapebas atualmente não supre nem 2% do consumo local de derivados do produto, sendo a maior parte importada de outras regiões. Segundo ele, agregar valor é fundamental para viabilizar a comercialização.

 

"Só arrancar e vender a mandioca é muito difícil. É preciso beneficiar. Hoje, Parauapebas não produz nem 2% dos derivados de mandioca que consome. Vem tudo de fora. Então, nós não temos medo de colocar nosso produto no mercado", afirmou o dirigente.


 

Para ampliar a produção, um especialista foi contratado para realizar análise e correção do solo e orientar a adubação. O plantio de mandioca teve início ao final de 2024, sendo necessário um ciclo de 18 meses até a colheita, como informou o vice-presidente.

 

A produção de mandioca pelas famílias assentadas se baseia em princípios de agroecologia, modelo de produção que vai além das práticas agrícolas convencionais, promovendo métodos sustentáveis e sem uso de agrotóxicos.

 

O próprio MST destaca que a agroecologia é uma resposta para enfrentar as mudanças climáticas, por adotar técnicas e manejos naturais que evitam a degradação ambiental.

 

Patricia Daros, diretora de soluções baseadas na natureza da Vale, salientou que o MST figura entre os maiores produtores de alimentos orgânicos do Brasil e reforçou que a empresa busca identificar oportunidades no território onde atua.

 

"Somos uma grande empresa, temos o nosso negócio que é produzir minério de ferro, cobre e níquel, mas a gente está dentro de um território. E não podemos negligenciar isso. O mercado de restauração florestal hoje no Brasil está pujante. Sistemas agroflorestais são fáceis? Não. Mas se você olhar para uma Belterra que não existia cinco anos atrás e hoje é uma das maiores empresas de restauração florestal no Brasil, estes são negócios que estão dando certo”, destacou Patricia Daros.


 

Mercado sustentável e tendências para a agropecuária

 

A atuação da Belterra Agroflorestas, assim como o desenvolvimento do beneficiamento da mandioca a partir de práticas agroecológicas e agricultura familiar, exemplificam uma tendência marcante para o setor agropecuário nas próximas décadas: o avanço da bioeconomia.

 

Esse modelo econômico se baseia na utilização racional dos recursos naturais, conciliando sustentabilidade, fortalecimento das tradições locais e cadeias produtivas regionais. Os resultados positivos desse formato de negócios têm atraído crescentes investimentos públicos e privados na Amazônia.

 

Projeções da Associação Brasileira de Bioinovação (Abbi) indicam que o setor da bioeconomia poderá movimentar cerca de 108 bilhões de dólares no Brasil até 2050, considerando uma estimativa conservadora que desconsidera o impacto de novas políticas climáticas.

 

No estado do Pará, somente a bioeconomia vinculada à sociobiodiversidade movimenta aproximadamente 13,5 bilhões de reais anualmente. Esses recursos são impulsionados por cadeias produtivas relacionadas a florestas, rios e agricultura familiar, conforme relata o documento técnico preliminar elaborado pela Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia.

 

Desafios de integração e perspectivas para a Amazônia

 

Embora tais projetos já impulsionem mudanças e dinamizem a economia amazônica, o pesquisador Pedro Abel Vieira, especialista em estudos estratégicos da Embrapa, observa que as iniciativas de bioeconomia atualmente são fragmentadas e pouco integradas entre si.

 

"Os projetos são positivos, mas sem foco", opina Vieira, defendendo que a região precisa de uma abordagem mais holística, com maior presença e coordenação do Estado. "Nós precisamos ocupar, e ocupar no sentido institucional de Estado, da presença do Estado lá. É preciso dar direções e criar institucionalidades [nessa região]", afirmou o pesquisador.


 

Ele também menciona que, após garantir a presença do Estado, é essencial direcionar, articular e garantir previsibilidade para tais projetos.

 

"Nós temos que avançar agora no que a gente chama de bioeconomia ampliada [um processo que combinaria inovação científica com conhecimento tradicional, especialmente para promover a biodiversidade, o desenvolvimento rural e a descarbonização industrial]. E isso só é possível com coordenação", reforçou Pedro Abel Vieira.


 

Bioeconomia e justiça social no contexto amazônico

 

Projetos que convertem áreas degradadas em sistemas agroflorestais e de agroecologia ganham destaque em um período marcado por alertas sobre o risco de colapso ambiental na Amazônia.

 

Um estudo divulgado pela revista Nature em 2024 alertou que, até 2050, o bioma amazônico pode atingir o chamado “ponto de não retorno”, quando a floresta perderia a capacidade de se manter, dando início à savanização. Essa mudança teria impacto direto no regime de chuvas em todo o Brasil, com consequências para plantações e reservatórios nacionais.

 

A bioeconomia é apontada como alternativa estratégica para o país. O governo federal lançou, no início de 2026, o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), com o objetivo de transformar a biodiversidade em um dos principais ativos do Brasil. Durante o lançamento, a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Carina Pimenta, defendeu que a estratégia visa não apenas à conservação, mas à utilização dos ativos ambientais no desenvolvimento econômico e na geração de um novo ciclo de prosperidade.

 

O pesquisador Roberto Porro, da Embrapa Amazônia Oriental, avaliou que a Estratégia Nacional de Bioeconomia apresenta uma formulação interessante, mas ponderou que será essencial acompanhar se a política governamental favorecerá o fortalecimento da sociobiodiversidade e da economia inclusiva na Amazônia.

 

Porro também destacou os desafios decorrentes da diversidade de atividades, setores e possibilidades econômicas englobadas pelo conceito de bioeconomia.

 

"Quando você trabalha com comunidades tradicionais ou com um segmento social que tem sido marginalizado há décadas, então não é adequado você trabalhar com a lógica do mercado pura e simples e com os tempos ou com o cronograma que o mercado demanda", afirmou Porro.


 

Para o pesquisador, pensar a bioeconomia apenas sob o prisma da preservação ambiental não é suficiente se não houver garantia de justiça social.

 

"Não basta você substituir combustível fóssil e não basta você ter uma produção agrícola mais produtiva se você fizer isso às custas de questões sociais e das culturas locais", declarou. "Por isso eu espero que se consolidem essas iniciativas voltadas a uma bioeconomia inclusiva, de fato. Uma bioeconomia que possa contribuir e não prejudicar esses grupos".


 

A repórter realizou viagem a convite da Vale.

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