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Palestinos votam em eleições locais; Gaza participa pela primeira vez em 20 anos

Votação deste sábado serve como termômetro político em cenário de conflito, com Autoridade Palestina buscando reafirmar controle sobre Gaza.

26/04/2026 às 04:34
Por: Redação

Eleitores palestinos compareceram às urnas neste sábado (25) para participar de eleições municipais que, pela primeira vez em duas décadas, se estenderam à Faixa de Gaza. O pleito é considerado um termômetro do atual clima político na região, em um período no qual o governo israelense intensifica esforços para inviabilizar a criação de um Estado palestino independente.

 

A Autoridade Palestina (AP), que tem sua sede na Cisjordânia, expressou a expectativa de que a inclusão da cidade de Deir al-Balah, na Faixa de Gaza, possa fortalecer sua reivindicação de autoridade sobre o território. A AP foi expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007, após conflitos internos.

 

Em meio à devastação e à luta por necessidades básicas no enclave, alguns moradores de Gaza manifestaram satisfação com a oportunidade de votar e exercer seu direito democrático.

 

 

"Como palestino e filho da Faixa de Gaza, sinto orgulho de que, após esta guerra, o processo democrático esteja retornando", disse o eleitor Mamdouh al-Bhaisi, de 52 anos, na seção eleitoral de Deir al-Balah.


 

Contudo, a participação popular foi considerada baixa. Dados oficiais revelaram que apenas 22,7% dos eleitores compareceram em Deir al-Balah, enquanto na Cisjordânia o índice foi de 53,44%. A contagem dos votos teve início imediatamente após o fechamento das urnas, com resultados previstos para serem divulgados entre este sábado e domingo, conforme informaram as autoridades eleitorais.

 

Hani Al-Masri, um analista político baseado na Cisjordânia, interpretou a baixa adesão em Gaza como um reflexo da crise humanitária que assola a região. Segundo ele, a população está mais concentrada na sobrevivência diária do que nos processos políticos. Al-Masri também apontou que a taxa de participação na Cisjordânia foi influenciada por um boicote promovido por algumas facções políticas.

 

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, que votou em uma seção eleitoral localizada na área de Al-Bireh, próxima a Ramallah, reiterou que eleições serão realizadas em toda a Faixa de Gaza assim que as condições permitirem.

 

 

"Gaza é parte inseparável do Estado da Palestina. Portanto, trabalhamos por todos os meios para garantir que as eleições ocorram em Deir al-Balah, a fim de afirmar a unidade das duas partes do país", disse ele.


 

Esforços pela governança de Gaza

 

Desde que o cessar-fogo entre o Hamas e Israel, mediado pelos Estados Unidos, entrou em vigor em outubro, as negociações lideradas pelos norte-americanos têm avançado pouco na busca por um acordo que estabeleça uma supervisão internacional para a Faixa de Gaza.

 

Amplamente, os governos europeus e árabes apoiam o eventual retorno da governança da Autoridade Palestina em Gaza. Essa visão está alinhada com a proposta de estabelecimento de um Estado palestino independente, que incluiria Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, onde a AP já exerce um autogoverno limitado sob a ocupação israelense.

 

Diplomatas ocidentais consideram que as eleições locais podem representar um passo importante em direção à realização das primeiras eleições nacionais em quase duas décadas. Além disso, esperam que o processo impulsione reformas para aumentar a transparência e a responsabilização, medidas que a Autoridade Palestina afirma já estarem em andamento.

 

 

"Esperamos que o procedimento realizado hoje seja coroado com eleições legislativas e presidenciais", disse Munif Treish, um dos candidatos na Cisjordânia.


 

A votação deste sábado marca o primeiro pleito de qualquer tipo em Gaza desde o ano de 2006 e as primeiras eleições palestinas realizadas desde o início da guerra na Faixa de Gaza, há mais de dois anos, desencadeada por um ataque transfronteiriço do Hamas contra comunidades no sul de Israel. As últimas eleições municipais na Cisjordânia ocorreram quatro anos atrás.

 

Desafios econômicos e políticos

 

A Autoridade Palestina tem enfrentado dificuldades financeiras significativas para honrar o pagamento de salários. Essa situação é agravada pela retenção de receitas tributárias por parte de Israel, valores que o país arrecada em nome da AP. Tal retenção intensifica os temores de um colapso econômico na região. Israel justifica a medida como um protesto contra os pagamentos de assistência social a prisioneiros e familiares de indivíduos mortos por suas forças, alegando que tais pagamentos incentivam ataques.

 

Adicionalmente, o governo israelense tem tomado ações para facilitar a aquisição de terras por colonos na Cisjordânia. O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, declarou reiteradamente: "Continuaremos a matar a ideia de um Estado palestino".

 

Na cidade de Deir al-Balah, que sofreu menos danos com os ataques israelenses desde 2023 em comparação com outras cidades de Gaza, faixas com as listas de candidatos puderam ser vistas penduradas em diversos edifícios.

 

O comitê eleitoral palestino apontou a destruição generalizada como uma das principais razões que impossibilitaram a realização da votação no restante da Faixa de Gaza. Mais da metade do território de Gaza está sob controle de Israel, enquanto a porção restante é dominada pelo Hamas.

 

Posicionamento do Hamas

 

Algumas facções palestinas optaram por boicotar as eleições em protesto contra a exigência da Autoridade Palestina de que os candidatos apoiassem seus acordos, os quais incluem o reconhecimento do Estado de Israel.

 

Embora o Hamas, que governa Gaza há quase duas décadas, não tenha apresentado formalmente nenhum candidato, uma das listas concorrentes na eleição de Deir al-Balah foi percebida por moradores e analistas como alinhada ao grupo militante.

 

Analistas sugerem que o desempenho dos candidatos associados ao Hamas poderá servir como um indicativo de sua popularidade atual. A maioria dos candidatos, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, concorreu pelo Fatah, que é o principal movimento político por trás da Autoridade Palestina, ou como independentes.

 

O Hamas, por sua vez, garantiu que respeitará os resultados do pleito. Fontes palestinas informaram à agência Reuters, antes da votação, que policiais civis do grupo foram mobilizados para assegurar a proteção das seções eleitorais em Gaza.

 

O Comitê Central Eleitoral Palestino divulgou que mais de um milhão de palestinos estavam aptos a votar, incluindo aproximadamente 70 mil eleitores na Faixa de Gaza.

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