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Crise no BRB após operação da PF gera apreensão entre funcionários

Operação Compliance Zero abala ambiente interno e expõe desafios para futuro do banco público do DF

16/04/2026 às 20:27
Por: Redação

A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal em novembro de 2025, que revelou fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, abalou a confiança de clientes e quase cinco mil empregados da instituição pública do Distrito Federal. Desde então, o cotidiano desses trabalhadores foi profundamente impactado pela crise desencadeada, segundo relatos do sindicato da categoria.

 

O diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal, Daniel Oliveira, funcionário efetivo do BRB desde 2008, afirma que as consequências da operação são sentidas por toda a sociedade e, especialmente, pelos trabalhadores do banco. Segundo ele, todos estão arcando com os custos decorrentes da decisão política que buscou salvar o Master.

 

Oliveira relata que o ambiente nas dependências do BRB está mais tenso que o habitual, principalmente entre os empregados chamados a prestar informações para a Polícia Federal e auditores sobre negociações mantidas com o Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde o início de março.

 

O sindicato tem recebido diversas manifestações de trabalhadores demonstrando preocupação, especialmente de analistas que participaram ou tiveram acesso às tratativas envolvendo a aquisição de créditos do Banco Master e a intenção do BRB em adquirir parte da instituição pelo valor de dois bilhões de reais. A proposta de compra foi rejeitada pelo Banco Central dois meses antes da liquidação extrajudicial do Master e do início da investigação federal.

 

A crise institucional instaurada é inédita nos mais de sessenta anos de existência do BRB, fundado em 1964. O afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por decisão judicial, motivado por suspeitas de fraudes financeiras, aumentou a desconfiança dos clientes, que passaram a buscar informações sobre a estabilidade do banco e possíveis riscos para seus investimentos.

 

Segundo Oliveira, muitos clientes têm procurado as agências do BRB para resgatar seus recursos, cabendo aos funcionários o esforço de convencê-los a manter as aplicações e a confiança na instituição. Para o sindicalista, a situação é agravada pela insegurança dos próprios empregados diante de incertezas e da falta de respostas oficiais para todas as perguntas feitas pelo público.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

A oscilação entre indignação e apatia predomina entre os trabalhadores, principalmente entre aqueles que identificaram sinais de irregularidades nas negociações com o Master ainda antes da atuação da Polícia Federal. De acordo com Oliveira, o sindicato já havia denunciado ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, em novembro de 2024, a primeira compra e venda de carteira de créditos do Master, por entender que a operação poderia ser prejudicial ao BRB.

 

Repercussão entre aposentados e investidores

 

O clima de apreensão estende-se a cerca de três mil aposentados que dependem dos planos de saúde e de previdência complementar administrados pelo BRB. Segundo comunicado da Previdência BRB, o patrimônio superior a quatro bilhões e trezentos e noventa milhões de reais é segregado dos recursos de patrocinadores e instituidores, incluindo empresas do conglomerado BRB. A instituição afirma que atua de forma autônoma e independente.

 

Com mais de dez milhões de clientes e ativos superiores a oitenta bilhões de reais, o BRB afirma possuir capacidade para absorver eventuais perdas com recursos de curto prazo. No entanto, Oliveira ressalta que a demora em apresentar uma solução pode provocar maior temor entre investidores e o mercado, colocando em risco esse patrimônio.

 

A ausência de informações claras sobre o verdadeiro impacto da compra de ativos do Master e a falta de um plano detalhado de recuperação levaram a agência Moody’s a rebaixar a classificação de risco do BRB. Para a agência, o banco dependerá de uma injeção significativa de capital, sob pena de enfrentar dificuldades para cumprir suas obrigações.

 

O BRB tem se pronunciado principalmente por meio de comunicados oficiais aos acionistas e ao mercado. Colaboradores e dirigentes foram orientados a não conceder entrevistas ou discutir a situação. No entanto, foi lançada uma campanha digital reforçando a solidez, estabilidade e funcionamento pleno do banco.

 

O novo presidente do BRB, Nelson de Souza, que assumiu após a saída de Paulo Henrique Costa, não compareceu à reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do DF, justificando que só poderá se manifestar após a conclusão das auditorias contratadas e a análise do balanço consolidado de 2025. Diante da ausência, a comissão aprovou a convocação obrigatória do dirigente para prestar esclarecimentos em data ainda indefinida.

 

Deputados distritais criticaram a falta de informações e cobraram esclarecimentos sobre a real situação do BRB, destacando o direito da população do Distrito Federal em ser informada sobre o futuro do banco público.

 

Oliveira avalia que a repercussão negativa na imprensa fortalece discursos favoráveis à privatização, podendo levar à venda de ativos do BRB para grandes bancos por valores inferiores ao mercado. Ele alerta que isso facilitaria a transferência gratuita de contas de governos e empresas para outras instituições financeiras.

 

Impacto no projeto de expansão e no funcionamento do banco

 

O agravamento da crise paralisou projetos estratégicos do BRB, como a expansão para outros estados, frustrando tanto funcionários que pretendiam se transferir quanto cerca de quatrocentos aprovados em concurso realizado em 2022, cuja convocação está suspensa até que a situação seja resolvida.

 

O plano de crescimento, uma das principais marcas da gestão anterior, permitiu ao banco administrar folhas de pagamento de servidores públicos em diversas cidades, inclusive capitais como João Pessoa, e abrir agências na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, foram estabelecidos correspondentes bancários em outros estados.

 

O investimento em marketing, incluindo patrocínio de eventos esportivos e a parceria com o Flamengo, resultou na criação do banco digital Nação BRB Fla, que atingiu quase quatro milhões de clientes. O projeto perdeu força antes mesmo do anúncio da intenção de compra do Master, sendo interrompido de forma indeterminada após a operação policial.

 

A governadora Celina Leão, que assumiu o governo do DF em março de 2026, reconheceu que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outros estados. Ela afirmou que a decisão caberá à direção do banco, mas reforçou que a prioridade será recuperar o foco regional e fortalecer o crédito no Distrito Federal. Celina também garantiu que o banco tem plenas condições de honrar seus compromissos e que uma solução para a crise será apresentada em até trinta dias.

 

Daniel Oliveira, no entanto, questiona o prazo e enfatiza a necessidade de um aporte financeiro imediato e eficaz para evitar agravamento das dificuldades. Ele defende que o GDF deve garantir condições para a recuperação da credibilidade e o controle público do BRB, ressaltando o papel da instituição no fomento da economia local e na execução de políticas públicas como os programas Cartão Gás, Creche, Material Escolar e o sistema BRB Mobilidade, utilizado em ônibus e no metrô.

 

Desafios de transparência e impactos institucionais

 

O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, avalia que a falta de divulgação do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis agrava a crise de confiança no BRB e pode resultar em multas diárias superiores a cinquenta mil reais impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários. Bergo considera a transparência essencial para garantir a segurança de correntistas e investidores e defende uma postura mais firme por parte das autoridades reguladoras.

 

Para o economista, é inadmissível que o banco ainda não tenha apresentado o balanço relativo ao ano anterior e que as assembleias para análise das contas e eleição dos novos conselhos só estejam marcadas para o dia 30 de abril. Ele também questiona a ausência de aprovação, em assembleia, dos dirigentes que passaram a representar o banco após a crise.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”


 

Alternativas para reorganização do BRB

 

Segundo César Bergo, existem quatro possibilidades para enfrentar a situação do BRB. A principal alternativa, segundo ele, seria a injeção de recursos financeiros pelos sócios, ou seja, pelo GDF e por recursos públicos, para capitalizar o banco.

 

Outras opções seriam: a obtenção de empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outros bancos, o que daria fôlego à instituição, mas com o ônus de juros elevados; a federalização do BRB, por meio de intervenção do governo federal, que poderia resultar na absorção pelo Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal, conforme ocorreu com o Banco do Estado de Santa Catarina em 2008; e, por fim, a privatização.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.


 

O BRB foi procurado para comentar a situação e fornecer esclarecimentos adicionais, mas não respondeu até o fechamento desta matéria. A defesa de Paulo Henrique Costa também não foi localizada.

 

Em nota, a governadora Celina Leão se pronunciou sobre a prisão preventiva do ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, ocorrida pela manhã. Ela informou que os fatos estão sob análise do Poder Judiciário, ao qual compete a apuração e julgamento, e assegurou que todas as providências cabíveis foram adotadas desde o início, em colaboração com as autoridades competentes.

 

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