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CNC aponta apostas online como fator de alta no endividamento familiar

CNC calcula que apostas digitais retiraram 143 bilhões de reais do varejo entre 2023 e 2026

29/04/2026 às 11:43
Por: Redação

De acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), entre janeiro de 2023 e março de 2026, o aumento da inadimplência por conta dos gastos com apostas eletrônicas resultou na retirada de aproximadamente 143 bilhões de reais do setor varejista. Esse valor corresponde ao total de vendas projetadas para o Natal de 2024 e 2025 somados.

 

O consumo nacional com plataformas eletrônicas de apostas ultrapassou a marca de 30 bilhões de reais mensais nesse período, afetando a renda disponível para o pagamento regular de dívidas. A CNC estima que cerca de 270 mil famílias tenham alcançado o quadro de inadimplência severa, caracterizado por atrasos de 90 dias ou mais no pagamento de compromissos financeiros.

 

Segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a elevação da inadimplência associada às apostas digitais impactou diretamente o consumo e as vendas no comércio varejista. Ele ressalta que, em situações de restrição financeira, as famílias tendem a abrir mão tanto de despesas não essenciais quanto de itens considerados essenciais.

 

Bentes apresentou uma análise econométrica, baseada em dados próprios da CNC e em informações do Banco Central, nesta terça-feira, 28, em Brasília. Ele exemplificou a situação afirmando que, diante do agravamento das dívidas, famílias podem adiar a troca de celular ou a aquisição de roupas.

 

Perfil dos mais afetados pelas apostas digitais

O estudo indica que o impacto das apostas eletrônicas sobre o endividamento e a capacidade de consumo é diferenciado entre os diversos grupos demográficos. Segundo a CNC, homens, famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos, pessoas com mais de 35 anos e indivíduos com escolaridade a partir do ensino médio estão mais expostos aos efeitos negativos das apostas.

 

Mesmo famílias de renda mais alta não estão imunes. A CNC aponta que, mesmo entre os mais ricos, há redirecionamento de recursos para apostas em detrimento do pagamento de compromissos financeiros, o que também pode levar a atrasos e inadimplência.

 

“As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, descreve apresentação da entidade.


 

CNC alerta para necessidade de regulação e proteção ao consumidor

José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, defende a criação de políticas públicas para regulamentar as plataformas de apostas e mecanismos de proteção aos consumidores. Ele afirma que as apostas online vêm comprometendo de maneira crescente a renda das famílias no Brasil.

 

“O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras.”


 

Dados da CNC indicam que oito em cada dez famílias brasileiras (80,4%) estavam endividadas, percentual próximo ao registrado no final de 2022, que foi de 78%. Entre 2019 e o fim de 2022, a proporção de famílias endividadas no país aumentou quase 20 pontos percentuais.

 

Reação do setor de apostas eletrônicas

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), representante das plataformas de apostas autorizadas no Brasil, encaminhou notificação à CNC no dia 27, solicitando maior transparência sobre a metodologia do estudo e o acesso integral às bases de dados utilizadas para avaliar o impacto das apostas no endividamento familiar.

 

Segundo o IBJR, versões anteriores do estudo teriam se baseado em premissas divergentes das informações oficiais. O instituto considera as conclusões da CNC alarmistas e argumenta que elas contrariam os indicadores públicos do setor.

 

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os números apresentados pela CNC, afirmando que eles não refletem as estatísticas oficiais do governo nem do setor. A entidade alega ainda que o estudo desconsidera os múltiplos fatores que influenciam o endividamento das famílias brasileiras.

 

Atualização realizada às 21h29 para incluir o posicionamento da ANJL.

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