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Economista Eduardo Giannetti analisa o fim da hiperglobalização

Economista Eduardo Giannetti avalia que a desestabilização de rotas comerciais e guerras tarifárias sinalizam o fim de uma era econômica.

26/04/2026 às 20:31
Por: Redação

Uma nova ordem econômica começa a se desenhar, substituindo o modelo de hiperglobalização que dominou o cenário internacional. Essa é a avaliação do escritor e economista Eduardo Giannetti, que aponta a desestabilização de rotas comerciais, como o Estreito de Ormuz, e as guerras tarifárias promovidas pelos Estados Unidos como indicativos dessa transição.

 

Em uma entrevista concedida à TV Brasil, que será transmitida no programa Repórter Brasil nas edições das 19h de segunda-feira (27) e terça-feira (28), o especialista explora uma série de temas que compõem o atual panorama global, marcado por crises e conflitos.

 

Giannetti ressalta a vulnerabilidade das cadeias produtivas globais, citando que, para 180 produtos considerados essenciais, existem apenas dois ou três fornecedores no mundo. Como exemplo, ele destaca que Taiwan é responsável por 90% da produção dos chips mais avançados.

 

“As consultorias internacionais mostram que, para 180 produtos críticos das cadeias globais de produção, há dois ou três fornecedores no mundo. Se você olhar, Taiwan responde por 90% da produção dos chips mais avançados. Então, a partir dessa constatação, há uma busca por diversificação e segurança”

 

Essa constatação impulsiona a busca por maior diversificação e segurança nas fontes de suprimento. O economista enfatiza que a lógica predominante não é mais a da “hiperglobalização fria”, que priorizava o custo de produção mais baixo, a escala, a eficiência e a concentração em um único fornecedor, pois o cenário atual impõe novas prioridades.

 

“Não é mais a lógica fria de hiperglobalização, que era custo de produção mais baixo, escala, eficiência e concentração num único fornecedor. Mudou".

 

 

Transformações na Economia Global

 

Eduardo Giannetti conecta o declínio da hiperglobalização a eventos históricos significativos, como a crise financeira global de 2008 e a pandemia de Covid-19, sublinhando o processo de financeirização que marcou esse período.

 

Ele compara que, no início da hiperglobalização, a proporção de ativos financeiros para o Produto Interno Bruto (PIB) era de aproximadamente um dólar de ativo financeiro para um dólar de PIB. Atualmente, essa relação se elevou drasticamente, situando-se entre nove e doze dólares de ativo financeiro para cada dólar de PIB.

 

O economista exemplifica essa financeirização ao mencionar que a valorização das ações na bolsa americana, entre os anos de 2022 e 2026, atingiu cerca de dois trilhões de dólares. Metade desse montante, segundo ele, está concentrada em apenas dez empresas, todas ligadas aos setores de tecnologia da informação e inteligência artificial.

 

Contudo, Giannetti argumenta que o fator mais impactante do período econômico que se encerra foi a entrada de centenas de milhares de trabalhadores asiáticos no mercado de trabalho e consumo. Esses trabalhadores, originários de áreas rurais de países como China, Índia, Vietnã e Indonésia, antes totalmente marginalizados da economia global, urbanizaram-se e encontraram empregos em um curto espaço de tempo, impulsionados pela hiperglobalização.

 

"Isso, para a classe trabalhadora ocidental, foi devastador, porque o poder de negociação, de afirmação de direitos e interesses ficou seriamente tolhido pelo fato de que, se começou a dar problema em Detroit, fecha Detroit e abre Xangai”.

 

 

Implicações Sociais e Políticas

 

Com a China consolidando sua posição como responsável por um terço da produção industrial mundial, o economista destaca uma melhoria significativa na qualidade de vida de sua população. Milhões de pessoas ascenderam da pobreza e foram integradas ao mundo moderno.

 

No entanto, essa transformação gerou uma considerável instabilidade social e política em outras regiões. Giannetti acredita que a ascensão da extrema direita, observada em diversos países, pode ser, em grande parte, atribuída ao ressentimento da classe trabalhadora e da classe média ocidental, que viram sua segurança e poder de barganha serem abalados.

 

Ele observa que o fenômeno da ascensão de movimentos populistas e nacionalistas de direita não é isolado, mas ocorre simultaneamente em muitos países, remetendo a um cenário similar ao da década de 1930 no Século 20.

 

 

Oportunidades para o Brasil

 

Para o Brasil, o fim da hiperglobalização representa uma chance histórica de reavaliar e reposicionar sua economia, na visão do economista. O cenário atual, em que o mundo busca maior segurança e diversificação, favorece o país.

 

O Brasil possui uma vasta dotação de recursos naturais, amenidades ambientais, fontes de energia, matérias-primas e minerais que serão dramaticamente demandados globalmente. Giannetti enfatiza a importância de o país saber como utilizar esses ativos a seu favor.

 

A biodiversidade é apontada como um dos grandes trunfos brasileiros, que detém um potencial significativo para atender à crescente procura mundial por alimentos, minerais críticos e terras raras. O desafio, segundo ele, é aproveitar essas vantagens comparativas por meio da industrialização, evitando a mera exportação de bens primários in natura, que é um caminho considerado limitado.

 

A disputa entre potências por acesso a esses recursos que o Brasil possui pode, inclusive, beneficiar o país, permitindo a negociação de termos mais vantajosos.

 

 

Crise Civilizatória e Climática

 

Além das mudanças na ordem econômica, Giannetti destaca que a humanidade atravessa uma crise civilizatória mais ampla, na qual as mudanças climáticas são a maior ameaça à espécie humana no Século 21. Essa ameaça, paradoxalmente, vem acompanhada de um forte negacionismo.

 

O economista aponta que, embora seja confortável ignorar o problema, a realidade das mudanças climáticas se impõe, e a frequência de eventos climáticos extremos as torna incontornáveis. Os governos, mesmo que desejem, não podem ignorar a questão climática indefinidamente.

 

A solução para essa crise pode ser abordada de duas maneiras: pela via preventiva, buscando minimizar os custos, que de qualquer forma serão elevados; ou pela “via dolorosa”, que implica um agravamento da situação a ponto de tornar a ação imperativa, o que resultaria em custos muito mais altos do que os necessários, conforme conjectura Giannetti.

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