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Anvisa reforça controle e alerta sobre uso irregular de canetas emagrecedoras

Agência e conselhos de saúde buscam coibir mercado ilegal e uso indiscriminado de medicamentos para obesidade e diabetes.

26/04/2026 às 13:33
Por: Redação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está examinando, nesta semana, uma proposta de instrução normativa que estabelece procedimentos e requisitos técnicos para medicamentos conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras. Esses fármacos pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1, e a crescente procura por eles, que incluem substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, tem gerado um cenário de uso indiscriminado e o crescimento de um mercado clandestino.

 

Atualmente, a legislação brasileira exige que esses medicamentos sejam adquiridos exclusivamente por meio de receita médica. Diante dos potenciais perigos à saúde pública, a Anvisa tem implementado diversas ações para combater o comércio ilegal, incluindo a venda de versões manipuladas sem a devida autorização. A agência também estabeleceu grupos de trabalho com a finalidade de apoiar suas atividades de controle sanitário e assegurar a proteção dos pacientes.

 

Neste mesmo mês, a Anvisa, em colaboração com o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), formalizou uma carta de intenção. O documento visa promover a utilização consciente e segura das canetas emagrecedoras, prevenindo riscos sanitários decorrentes de produtos e práticas irregulares, e protegendo a saúde dos cidadãos brasileiros.

 

A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas.

Em declaração à Agência Brasil, Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), considerou que os medicamentos injetáveis para emagrecimento representam um avanço significativo no tratamento de obesidade e diabetes, mas expressou grande preocupação com o uso descontrolado desses produtos.

 

São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.

Dornelas acrescentou que, para indivíduos com doenças crônicas, a esperança de um tratamento eficaz e de longo prazo é um horizonte promissor. Ele enfatizou que esses medicamentos são cruciais não só para a redução de peso e controle glicêmico, mas também para a diminuição do risco cardiovascular.

 

Volume alarmante de produtos irregulares

 

Um levantamento recente da Anvisa, citado por Dornelas, revelou uma discrepância entre a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas emagrecedoras e a demanda legítima do mercado nacional. Conforme os dados, apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos, volume que seria suficiente para a produção de aproximadamente 20 milhões de doses.

 

Ele ressaltou o número expressivo de apreensões: “Quando se fala em 20 milhões de doses, é um número chamativo, mas mais do que isso: eles apreenderam 1,3 milhão de medicamentos por algum grau de ilegalidade ou irregularidade, seja pelo transporte, pelo armazenamento”, detalhou.

 

Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.

O presidente da Sbem também mencionou seu apoio, junto a outras entidades, à decisão da Anvisa de exigir que farmácias e drogarias retenham as receitas de canetas emagrecedoras desde junho do ano anterior, afirmando que “o consumo desenfreado, eu diria, vem do mercado paralelo”.

 

Diante do crescimento exponencial do uso irregular, Dornelas sugeriu uma medida mais drástica.

 

Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade.

Ele argumentou que a agência não possui estrutura para fiscalizar um volume tão grande de 20 milhões de doses, defendendo o bloqueio temporário da manipulação até que sejam implementadas outras medidas mais eficazes.

 

Mecanismos de ação e riscos potenciais

 

Ao explicar os benefícios desses medicamentos para pacientes com obesidade e diabetes, o médico detalhou que eles operam por três mecanismos principais: auxiliam no controle da glicose; atrasam o esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de saciedade; e atuam no cérebro, diminuindo o apetite. Isso resulta em menor ingestão de alimentos e, através de mecanismos fisiológicos e da interação com outros hormônios, uma perda de peso considerável. A semaglutida, por exemplo, gera uma perda média de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida pode atingir entre 22% e 25%, dependendo de fatores individuais como dose, acompanhamento profissional e adesão a mudanças de estilo de vida e alimentação.

 

Dornelas enfatizou que todos os medicamentos podem causar efeitos colaterais, e as canetas emagrecedoras comumente provocam náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais. Ele alertou que esses riscos se agravam consideravelmente com o uso indiscriminado, especialmente ao adquirir os medicamentos de fontes não confiáveis, que podem não garantir armazenamento ou transporte adequados.

 

Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito.

A Anvisa também começou a registrar efeitos adversos mais graves, como a pancreatite. O médico informou que a pancreatite é uma doença frequente no Brasil, com cerca de 40 mil internações anuais, geralmente causada por consumo excessivo de álcool ou cálculos na vesícula. Ele explicou a relação com as canetas emagrecedoras:

 

Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.

Quatro pilares para um uso seguro

 

O presidente da Sbem delineou os quatro pilares essenciais para a segurança e responsabilidade no uso desses medicamentos:

 

  • Utilizar um produto seguro e legal, que possua registro no Brasil;
  • Ter a prescrição de um médico devidamente registrado, que forneça acompanhamento adequado desde o diagnóstico;
  • Saber de quem se compra, preferindo farmácias e drogarias que garantam uma aquisição segura;
  • Usar as doses corretas, seguindo rigorosamente a orientação médica, e jamais adquirir em mercados paralelos.

 

Dornelas esclareceu que a ocorrência de efeitos colaterais não é uma regra para todos os usuários. Embora náuseas possam afetar entre 30% e 40% dos casos, ele enfatizou que, em teoria, não são um sintoma obrigatório, e que entre 60% e 70% das pessoas não sentem nenhum efeito. A ausência de efeitos colaterais não indica ineficácia do medicamento.

 

Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante.

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